"Não te amo mais, queria dizer a ele, pela primeira vez, sem esperar que ele sofresse com isso. Sempre quis que ele sofresse com esse dia. Mas justamente porque eu não o amo mais, nem quero mais que ele sofra. Aliás, não quero mais nada. Só ir embora.
Quero namorar esse homem? Não. Quero casar, ter filhos, envelhecer ao lado dele? Não mais. Quero dormir com ele, ainda que daquele jeito errado em que minha solidão procura um abraço e a solidão dele procura sei lá eu o quê? Não. Não quero mais mudar ou fantasiar ninguém. Deixa o mundo ser como é. Deixa ele ser como ele é.
É preciso coragem pra sair do automático. A mente é viciada, comandada, acostumada. E é por isso que quando ele, a pessoa que eu mais amei no mundo (amei sem os bloqueios e sem a amargura que veio depois de tanto amor) me pede pra ficar, eu fico. Se alguma química do meu cérebro obedeceu aquela voz por anos, por que haveria de parar de obedecer agora?
Mas ontem, quando finalmente peguei minha bolsa e fui embora, senti um alivio imenso e novo. Combinei que meus pensamentos condicionados não mandam mais em nada. Nadinha. Chega de ser comandada pela parte mais sem alma da minha existência.
Ainda que encarar um coração vazio seja mais assustador do que obedecer à velhos padrões, o prazer da coragem é sempre muito maior que qualquer susto."

Tati Bernardi

"Fica difícil saber quando esse processo - agora doloroso - de diferenças, sumiços da vida da outra e cronograma em comum errôneo começou. Vai saber se foi você quem se fechou primeiro por causa da minha falta de tempo, do comportamento grosseiro de vez em quando, das intrigas que me fizeram inexperiente, culpada e vilã, ou se fui mesmo eu quem, aos pouquinhos, escolhi viver com quem tem mais a ver, botar a boca cheia de sinceridades no trombone ou me recusar a aceitar as críticas, os maçantes comportamentos. A gente pensa sempre que é importante na vida dos outros, mas é quando eles silenciam, ao invés de defender, que o pensamento para por alguns instantes e avalia que talvez nada fosse mais tão bom assim.
Como fazer durar uma amizade que já se encaminhava pra um afastamento, com tão pouca coisa a ver, fases extremamente diferentes, assuntos que mal batem e acabam sendo quase sempre sobre as gentes alheias e o supérfluo, roupas, emprego, faculdade, nada de útil? Sinto como se, mais ou menos como aqueles chicletes vendidos por metro de quando a gente era pequenas, cada uma foi puxando para o seu lado. Vagarosamente. Na lentidão de quem não quer perceber que a força motriz da companhia de outros tempos já perdeu o sabor e deve estar beirando já o lixo. Ver um negócio de ano respirar por aparelhos é de cortar o coração. Ou as relações. Enfim.
É o choque de se dar conta que o nosso muito, talvez fosse pra outra amiga, tão pouco. O medo de não saber daqui pra frente como vai ser, se sozinha é melhor assim, ou daqui um tempo talvez, tudo se resgate lá na frente. Por enquanto, muito vai sendo deixado pelo caminho: as coisas boas da vida que precisariam ser contadas, fofocas que vão surgindo semana após semana, as incontáveis lembranças sem espaços de rir junto ao se maquiar, dividir uma mesma chapinha, chiclete antes de festa, faculdade reunida e outras mais que não cabem em uma só. Mas compõe memórias, fazem volume. Já que as dúvidas são milhões, a mágoa grande e o futuro incerto, que seja. Pequeno o sentido, menor ainda a predisposição. Passa o tempo, mudam as pessoas, que se conserve pelo menos, além das recordações, carinho e qualquer respeito bom. Um dia, se encontrando por aí, conversa descontraída e remorso já digerido, a gente aprende."

Camila Paier

"Quando tá tudo indo bem, eu sempre tenho a sensação de que alguma coisa, no fundo, tá muito errada. Sei lá, é como se um relacionamento saudável fosse impossível no meio dessa merda toda, e quando eu não posso ver os erros, eu fico com essa certeza de que estou sendo enganada. E fico procurando, investigando, revirando o mundo pra encontrar os vacilos, mentiras, motivos pra terminar. Percebe a loucura? É como se ninguém pudesse me amar e ponto. De tanto colarem o adesivo de ‘trouxa’ na minha testa, qualquer carinho me parece suspeito. Percebe a tortura? Fico oscilando entre confiar e desconfiar, querendo viver uma história leve e sempre me afundando nas minhas neuroses e cicatrizes. E homem nenhum aguenta isso, homem nenhum percorre meu labirinto até o fim. Mas como eu poderia me entregar, sem antes saber se posso ir inteira? Como posso confiar de novo, sem saber se vai ser realmente diferente? Quero alguém que rompa meus lacres, não que me lacre mais! E sigo estragando tudo, só pra não ficar pior depois. Quando eles finalmente se cansam e caem fora porque eu sou louca de pedra, eu fico satisfeita. E penso “Viu, sabia que eu tava certa”. Talvez eu até esteja errada, mas que se dane. Se uma pessoa não tem paciência nem pra conquistar minha confiança e afastar meus medos, o que eu posso esperar então?"

Tati Bernardi

"Será que eu te conto? Até hoje, no final de todo beijo tem a saudade do seu. No final de todo abraço tem a saudade do seu. No final de toda conversa tem a saudade da sua voz, sempre entre o genial e o tradicional, o menino artista e burocrático. O menino louco e ponderado. Nem temos uma música, todas emprestamos das suas outras relações. Nem temos uma história, todas eu imaginei, todas a gente só pensou. Nem tenho você, mas você não imagina a falta que faz o que você podia ser. É isso. A falta que faz o que a gente podia ter sido. Aquele dia que eu te liguei e expliquei que ia acabar tudo porque eu estava gostando demais de você. E daí, meu exagero, essa coisa toda que faço, que me ultrapassa, que eu própria não aguento, que me faz querer explodir tudo pra poder voltar a respirar e saber quem eu sou e o que estou fazendo. O egoísmo de não suportar sentir o que não acaba quando eu mandar.
Cansei do meu orgulho cheio de ocos e ecos e secos. Então eu queria dizer como era enorme isso tudo dentro de mim. E como ainda é. E te pedir desculpas porque não consegui olhar quando você entrou no táxi. Eu não consegui gostar de você de tanto que eu gostava e isso não merece chances ou palmas. Cansei de só sentir se for maior do que eu justamente pra dar a desculpa que, por ser maior do que eu, não posso sentir. É o jogo macabro que faço comigo pra nunca sair do mesmo lugar mas me dizer romântica. Eu não sou romântica, eu sou burra. Medrosa. Só isso."

Tati Bernardi

"Não me sonhe, por favor. Pessoas que acham que podem me amar me ofendem. Eu seria mais feliz se eu não me achasse melhor do que a minha vizinha. Mas eu sou infinitamente melhor que ela. Eu e minhas crises de ansiedade somos seres solitários, arrogantes e multiplicados por megalomanias. São mil vezes cem anos de análise e nada. Eu continuo me achando melhor que o amor igual e idiota que se oferece por ai. Melhor do que os casais e seus dilemas de festas de finais de ano e seus sonhos de vestidos brancos e seus cachorros e sacadas de predinhos neoclássicos e planos médicos familiares. Chato, chato, chato.
Não sei o nome de milhares de capitais de milhares de estados. A minha vida inteira tirei 6 pra passar de ano. Leio pouco. Sou meio flácida e corcunda. E, ainda assim, quando um bom moço me oferece amor, me sinto ofendida."

Tati Bernardi